1 de novembro de 2012

Heat Dies Down

Mudar de casa é parar de pensar que é a última vez que durmo/cozinho/estudo aqui, para passar a pensar como será a primeira noite na cama nova, como será o primeiro jantar, o primeiro banho. Mudar de uma residência universitária para uma casa é passar a ter medo que nos entrem pela casa com uma arma apontada (a minha veia para fazer filmes é particularmente boa nisto), é ouvir todos os barulhinhos, a madeira a ranger, os sons vindos das outras casas, mas que parecem mesmo ser cá dentro, com o coração em sobressalto. É pôr a caldeira a funcionar à segunda tentativa, porque fomos mongas o suficiente para ficar a olhar para o ponteiro em vez de abrir a torneira da água quente. É tentar remediar as coisas que ainda não estão bem. É dizer, se tiveres medo podes vir dormir para a minha cama, meia a brincar, meia a dizer a verdade. É tratar da net e tv às 23h, porque a promoção acabava nesse dia, e sermos bem sucedidas. É só saber como se fecha a persiana para que não entre nem um raio de luz na manhã seguinte.
Está mais frio dentro de casa do que na rua. Todos os barulhos são seguidos de ecos assustadores. A sala ainda está muito vazia e impessoal. A máquina de lavar roupa e o forno ainda não foram usados. Foram precisas quatro viagens de carro, atulhado de malas, sacos e o diabo a sete, e umas mil horas a passar as coisas dos ditos sacos e malas para os armários e ainda não está tudo como eu gostava. Foi preciso montar a secretária nova com pernas rosa choque e pôr luz no tecto. No meio disto tudo descobri que até tenho jeito para aparafusar, força é que nem por isso. 
Já percebi que gosto de mudanças, de ver as coisas a tomarem as formas que queremos, a ficarem mais nossas. Não podia ser coincidência eu todos os anos (algumas vezes mais do que uma vez por ano) mudar a disposição dos móveis do meu antigo quarto.
Confesso que andava cheia de medo de ficar (ainda) mais baleia por deixar de andar 1 hora (às vezes 2) a pé por dia, mas já percebi que o facto de o meu quarto ser no primeiro andar, a cozinha no rés-do-chão e o quarto da minha companheira de casa no sótão me vai fazer mexer muito este grande rabo. Somos mariquinhas e mesmo assim não trancámos o portão.
No fundo, até faz sentido dormir numa cama de pessoa e meia. Precisamos de espaço para as saudades e para os centímetros que crescemos entretanto.

4 comentários:

Ana 100 Sentidos disse...

O meu crescimento deve ser enorme.
Durmo sozinha numa casa e numa cama de casal.

Xana disse...

Ana, espero que sim. O crescimento interior deve ser sempre bem vindo.

David Pires disse...

Mudei de casa este ano também, e percebo o que queres dizer quando dizes que é bom ver as coisas a ganhar forma. Acho que é das melhores coisas de mudar é isso.
Boa sorte para essa "nova" vida :)

Xana disse...

Também acho que é :) Obrigada!